«Queria um café?» é erro?
Antes de começarmos: estão abertas as inscrições para PORTUGUÊS NA PRÁTICA, o meu novo curso online sobre gramática, pontuação e revisão. Obrigado! E, agora, um excerto do meu livro Queria? Já Não Quer?
Uma piada mil vezes repetida
Uma pessoa chega a um café e diz:
– Queria um café, por favor!
Não é raro ouvir, em Portugal, a resposta bem-disposta:
– Queria? Já não quer?
O cliente faz um sorriso amarelo, encolhe os ombros, o café vem de qualquer maneira e a vida continua sem problemas de maior. Ninguém deixou de compreender ninguém – foi apenas uma piada. Uma piada mil vezes repetida (o que lhe tira, convenhamos, uma certa graça).
Se a falta de graça fosse o único problema da piada, não mereceria estar aqui, neste livro, que trata de ideias falsas sobre o português. No entanto, por trás da piada há muito a dizer.
Para começar, temos aquelas pessoas que acreditam mesmo que «queria um café» é um erro de português. Existem e não são, em geral, quem está a servir um café.
Estas pessoas defendem que, para fazer um pedido ou expressar um desejo, não devemos usar o pretérito imperfeito («queria…», «gostava…»), mas o condicional («quereria», «gostaria»). Porquê? Porque é o mais habitual noutras línguas das redondezas e parece, pelo menos a algumas pessoas, mais lógico usar o condicional: «quereria, se fizesse favor», «gostaria, se fosse possível».
Esta ideia não faz sentido. O uso do imperfeito com este intuito foi uma solução encontrada pelos falantes para expressar a obliquidade do pedido, para que este não seja tão directo.
Não é nada de extraordinário. O funcionamento dos verbos muda de língua para língua (e, em certos pontos, varia mesmo dentro de cada língua).
Cada idioma tem recursos diferentes para expressar três eixos de significado para cada verbo: o tempo (o momento a que nos estamos a referir), o aspecto (o estado a que se refere o verbo: se já começou, se está em andamento, se terminou, se é repetido, entre outros), o modo (a opinião ou a perspectiva do falante em relação ao que está a ser dito). Para expressar estes três eixos, cada língua usa uma mistura de formas diferentes (morfologia), construções diferentes (sintaxe) e palavras auxiliares (léxico).
Estes termos – tempo, aspecto, modo – são ferramentas de análise (e ensino) aplicadas para explicar um sistema que não foi planeado. Não houve ninguém que se tenha sentado a pensar: «Então, como é que vamos expressar o tempo em português?» Os primeiros gramáticos olharam para a língua e tentaram descrevê-la (prescrevendo aqui e ali algumas opções, que não são criações novas, mas selecções entre usos diferentes).
Repito: o sistema verbal das línguas naturais resulta não de planeamento prévio, mas do uso sistemático.
Dou um exemplo concreto. Em português, temos um tempo verbal particular chamado «pretérito perfeito composto» que é criado pelo verbo auxiliar «ter» e o particípio do verbo principal: «tenho falado», «tenho ido»… Este tempo verbal ganhou aquilo a que podemos chamar um uso aspectual iterativo. Por outras palavras: este tempo verbal serve, em português (e apenas em português) para expressar algo que acontece com frequência (no passado e no presente). (As outras línguas usam outros tempos verbais para fazer o mesmo.)
Porquê?
Este tempo verbal começou a ganhar este significado preciso através do uso continuado. Originalmente, o tempo tinha o sentido de passado próximo, como tem em castelhano (he hablado: falei há pouco tempo). No entanto, provavelmente pelo uso frequente de construções como «tenho falado [= falei] com ele várias vezes nos últimos dias», o aspecto iterativo do verbo começou a ficar inscrito no próprio tempo verbal, deixando de ser necessário usar mais palavras para expressar esse sentido. Assim, para dizer o mesmo, passou a ser necessário dizer apenas «tenho falado com ele».
Não sabemos como aconteceu, mas aconteceu. Para aprender português, temos de aprender esse sentido desse tempo verbal.
E o pretérito imperfeito do indicativo?
O pretérito imperfeito do indicativo, da mesma forma, ganhou o sentido (entre outros) de cortesia ou de desejo. Dizemos «Gostava de ir passear» para expressar um desejo. Dizemos «Queria um café» para expressar um pedido. Este sentido do verbo partiu, provavelmente, da necessidade de fazer um pedido de forma oblíqua, indirecta.
Os gramáticos, como lhes compete, registaram este uso. Está nas gramáticas, às vezes com nomes diferentes (os nomes são aplicados a posteriori). É o uso continuado que imprime o sentido às palavras e construções. Se uma determinada palavra ou construção existe e tem um significado que é usado, sistematicamente, há séculos – esse é, por definição, um dos significados da palavra ou construção!
Em suma: dizer «queria um café» não é erro. Erro seria dizer «quis um café» ou «quererei um café» para fazer um pedido, porque esses usos não têm esse sentido. Em português, podemos usar o imperfeito do indicativo, o condicional ou o presente para pedidos.
É o uso continuado que imprime o sentido às palavras e construções. Se uma determinada palavra ou construção existe e tem um significado que é usado, sistematicamente, há séculos – esse é, por definição, um dos significados da palavra ou construção!
Há quem não goste. Há quem prefira que esse uso do pretérito imperfeito do indicativo fosse considerado erro porque não lhe encontram lógica. Ora, isso faz tanto sentido como dizer que os verbos irregulares deveriam ser alterados porque não é lógico terem formas que não são as regulares. A lógica não serve para determinar qual é a gramática da língua; a gramática da língua é que, bem aprendida, serve para expressar enunciados lógicos.
Outros afirmam que não podemos usar o pretérito imperfeito do indicativo para expressar pedidos porque esse tempo já tem outro sentido. Ora, a ideia falsa de que devemos aplicar um só sentido a cada tempo verbal é particularmente perniciosa porque, a ser aplicada, iria resultar numa língua extraordinariamente menos expressiva e muito mais limitada. Só para dar dois exemplos de usos que saem do sentido mais central da forma verbal, pensemos em como usamos o futuro para expressar dúvida («a esta hora, ele já terá chegado a casa») ou como usamos o pretérito perfeito para falar de algo que vai acontecer amanhã («amanhã, por esta hora, já chegámos a casa»). São só dois exemplos… Não são só as palavras que têm vários sentidos: os mecanismos gramaticais também.
A complexidade do português é quase invisível a quem a tem dentro da cabeça – é bastante mais visível para os estrangeiros que aprendem a nossa língua. Acontece o mesmo quando aprendemos outras línguas; a complexidade nem sempre está no mesmo ponto, mas está lá. De vez em quando, algum falante repara num ponto menos simples da sua própria língua e confunde-o com um erro na gramática – daí nascem alguns dos mitos de que temos estado a falar.
✖ «Queria um café» deveria ser sempre «quero um café». – FALSO
✓ «Queria um café» é uma das várias formas possíveis de fazer um pedido. – VERDADEIRO
Excerto de Queria? Já Não Quer? — Mitos e Disparates da Língua Portuguesa, de Marco Neves, publicado pela Guerra e Paz.
Relembro a abertura das inscrições para PORTUGUÊS NA PRÁTICA, o meu novo curso online sobre gramática, pontuação e revisão.

