Nuno e Natércia: nomes só portugueses?
Notícia: hoje, dia 27 de Janeiro, às 18h00, vou estar a conversar com autores de vários países que escrevem livros sobre línguas. Será uma sessão em inglês. A inscrição é gratuita.
O texto abaixo baseia-se num episódio da semana passada da rubrica na RTP1 Esta Língua que nos Une. Dá todos os dias na RTP1, no programa Portugal em Rede, por volta das 18h30, e no intervalo do Bom Dia, Portugal, às 9h30, na RTP Notícias.
Hoje trago dois nomes que tentam responder de forma diferente a uma pergunta que me fazem por vezes: haverá algum nome que venha do português e que não tenha origem noutra língua qualquer?
Quando falamos de nomes próprios, costumamos olhar para a origem: pode ser latina, grega, hebraica, germânica, árabe… Há muitas origens e raramente dizemos “este nome foi criado do zero em português, não existia nada parecido antes”.
As línguas estão sempre a ir buscar materiais às línguas que as precedem ou a outras línguas. Não costumamos simplesmente criar uma palavra, um nome aleatório, com sons ao calhas. Vamos sempre olhar para o que está ao lado, o que está perto, o que está noutra língua, o que está na língua que deu origem à nossa. É assim que as línguas funcionam: costumam reciclar materiais.
Ora bem, há dois nomes que parecem ser, de facto, muito portugueses. Haverá mais alguns, mas estes dois começam ambos por N. E como estamos no N, na ordem alfabética que estou a seguir [na rubrica da RTP] decidi falar destes dois.
O primeiro é Nuno. Nuno é um nome que muitas pessoas identificam como sendo particularmente português, porque não aparece nas línguas à volta: não se vê Nuno noutros lugares, noutros países. No entanto, o mais provável é mesmo ter uma origem anterior, provavelmente latina, porque o nome também existe em castelhano. É muito, muito, muito mais raro do que em português, mas existe. E também existe em catalão. Em castelhano é Nuño, com aquele Ñ típico; em catalão é Nunyo, com NY, que é o dígrafo usado para representar este som.
O nome existe nestas três línguas ibéricas, mas é muito mais raro nas outras do que em português. Em português é mesmo muito comum.
Terá vindo — os especialistas da etimologia não têm certezas absolutas — provavelmente da palavra NONNUS, do latim. Queria dizer algo como “tutor”, “aquele que ensina”. E desta palavra terá surgido este nome muito ibérico. Há também quem acredite que vem de nonus com o sentido de “nono” (como acontece com Octávio, “oitavo”), mas é improvável no caso de Nuno, por causa de um detalhe fonético importante.
Quando temos uma palavra ou um nome que em português tem um único N e em castelhano tem um Ñ, isto costuma significar que na palavra original latina havia dois Ns. Os dois Ns deram Ñ no castelhano e um único N no português — isto numa fase muito antiga da separação das línguas ibéricas. Portanto, Nuno (português) e Nuño (castelhano) terão vindo de nonnus (com dois Ns), e não de nonus (com um só N).
Há ainda quem argumente que, tendo em conta a frequência muito maior do nome nas zonas com presença celta, a origem poderia ser celta — mas não há grandes indícios. Provavelmente vem mesmo do latim.
É um nome muito, muito português porque é muito frequente em Portugal, em grande medida por causa de Nuno Álvares Pereira. Foi tão importante na nossa história que o nome se tornou muito comum em todo o país.
Agora: haverá algum nome que de facto tenha aparecido em português?
Posso dar um exemplo de um que se aproxima dessa ideia: Natércia.
Natércia surge num soneto de Camões:
Na metade do Céu subido ardia
O claro, almo Pastor, quando deixavam
O verde pasto as cabras, e buscavam
A frescura suave da água fria.
Com a folha das árvores, sombria,
Do raio ardente as aves se amparavam;
O módulo cantar, de que cessavam,
Só nas roucas cigarras se sentia.
Quando Liso Pastor, num campo verde,
Natércia, crua Ninfa, só buscava
Com mil suspiros tristes que derrama.
Porque te vás de quem por ti se perde,
Para quem pouco te ama? (suspirava)
E o eco lhe responde: Pouco te ama.
Neste soneto temos o nome Natércia. Natércia era um anagrama — ou seja, uma palavra com as letras todas misturadas — de Caterina (uma forma alternativa de Catarina). Era uma maneira de Camões falar de Catarina sem escrever Catarina no poema.
Portanto, Natércia surgiu da imaginação de Camões. Podemos dizer que foi um nome que surgiu em português, sem nenhuma outra origem anterior directa, embora tenha uma ligação a Catarina. E repare-se: há sempre uma ligação a qualquer coisa que já vem de outro lado, de outra língua, de outra tradição. É assim que as línguas funcionam.
Temos, então, Nuno e Natércia como dois nomes muito portugueses, por razões diferentes: um porque é muito mais frequente em português do que noutras línguas; outro porque nasceu da cabeça do nosso maior poeta.

