Antes de começarmos: hoje é o último dia de inscrições no meu curso Português na Prática. Vamos trabalhar a gramática, a pontuação e a revisão, com exemplos concretos, para escrever com mais clareza e segurança. Começamos na segunda-feira, 28 de Setembro, às 21h30, hora de Lisboa. As sessões em directo ficam gravadas. Também pode inscrever-se em dois cursos.
«Não há nada» é erro de português?
Nós somos óptimos a usar a língua (apesar do que se diz por aí) e muito maus a compreendê-la. Cada idioma humano é criado pelos falantes, sem plano prévio, mas o seu funcionamento é tão complexo que não é fácil compreendê-lo de forma consciente.
É também por isso que surgem tantos mitos sobre a linguagem humana.
Um dos mitos mais subtis sobre a nossa língua, com a aparência de ser muito razoável, é a ideia de que, se juntarmos duas palavras negativas, acabamos com uma afirmação. Se eu disser «não há nada», é porque estou a dizer que há alguma coisa — e, se não é essa a minha intenção, então cometi um erro. É uma dupla negação. Logo, uma afirmação!
Será mesmo assim?
A lógica que aprendemos na escola diz-nos isto: duas negações equivalem a uma afirmação. É verdade, claro. O problema é que daqui não decorre que, numa língua natural, duas palavras negativas sejam sempre equivalentes a duas negações.
Vamos por partes.
Em português, usamos várias palavras para construir negações: «não», «nunca», «nada», «ninguém», «nenhum»… Mas não basta contar essas palavras para perceber o sentido de uma frase.
Comparemos:
«Há alguma coisa naquela sala.»
«Não há nada naquela sala.»
A primeira oração é afirmativa. A segunda é negativa. Se quisermos usar a terminologia dos livros de Português, dizemos que uma tem polaridade afirmativa e a outra tem polaridade negativa. A polaridade expressa-se em cada oração, não em cada palavra.
Agora, reparemos nesta outra oração:
«Não entro na sala.»
Também é negativa. Num caso, usámos duas palavras («não… nada»); no outro, apenas uma («não»). O número de palavras mudou, mas continuamos a ter, em cada caso, uma oração com polaridade negativa.
Em certas construções, a sintaxe da língua portuguesa exige duas palavras para construir uma oração negativa; noutras, basta uma (por vezes, depende da posição da palavra).
Veja-se este par:
«Ninguém vai.»
«Não vai ninguém.»
São duas maneiras perfeitamente correctas de dizer o mesmo. Mudámos a posição de «ninguém» e a construção da frase mudou com ela. No entanto, a polaridade da oração mantém-se a mesma.
(Posso dar um exemplo mais radical: se eu dizer «Não, não, não, não faças isso!» — é claro que não é preciso contar o número de «nãos» para determinar se o número é par ou ímpar e, assim, perceber se a polaridade é negativa. A negação acumula-se, não se anula.)
Em «não há nada», de acordo com as regras da nossa língua, as duas palavras negativas expressam, em conjunto, uma só negação.
Cada língua tem as suas particularidades e esta é uma das muitas subtilezas do português, que encontramos também noutras línguas. Achar que não deveria ser assim faz tanto sentido como dizer que não deveria haver verbos irregulares. Podemos imaginar uma língua diferente, com regras mais ao nosso gosto, mas não seria a nossa.
Então, e as verdadeiras duplas negativas?
Também existem, claro. Repare nesta frase:
«Não é verdade que não chova.»
Aqui, estamos a negar que não chova. Ou seja: chove.
Podemos até ter uma frase com três palavras negativas e compreendê-la sem dificuldade:
«Não há ninguém que não ache isso.»
O sentido é: todos acham isso. O primeiro «não» e o «ninguém» expressam uma negação; o segundo «não» expressa a negação da oração seguinte e, assim, estamos perante duas negações, uma dupla negativa. O nosso cérebro percebe a relação entre as duas orações sem precisar de fazer uma contagem de palavras.
O português, como todas as outras línguas, permite-nos expressar enunciados lógicos (e também enunciados sem lógica nenhuma). Permite-nos fazer negações, negar negações, construir afirmações complexas. Só temos de compreender como funciona a sintaxe da língua. Não temos de inventar uma nova.
Já me disseram que, se evitássemos construções como «não há nada», era meio caminho andado para pensarmos de forma mais lógica. Ora, usar «nada há» em vez de «não há nada» é apenas uma opção estilística. Não nos põe a pensar melhor.
Pior: esta preocupação pode estragar as frases de pessoas que escrevem bem. Começam a produzir monstros como «isso custa nada» ou «há nada», só para evitar duplas negativas que não o são.
Não há nenhuma razão para fazer tal desfeita à nossa pobre língua!
É possível que esta regra falsa tenha recebido alguma ajuda do inglês. No inglês padrão, construções como I don’t know nothing, com o sentido de «não sei nada», são evitadas: usa-se I don’t know anything.
Mas essa é uma regra do inglês padrão. Há variedades do inglês em que as duas palavras negativas convivem sem problema — e não consta que os seus falantes sejam menos lógicos no pensamento.
Mesmo que todas as variedades do inglês seguissem a mesma regra, isso não nos obrigaria a aplicá-la ao português.
«Não há nada» não é erro de português. A expressão está bem construída e diz exactamente aquilo que todos percebemos quando a ouvimos. O erro está em tentar corrigir à força a lógica da frase antes de perceber a verdadeira lógica da sintaxe do português.
O texto acima é uma adaptação de um excerto do meu livro Queria? Já Não Quer? — Mitos e Disparates da Língua Portuguesa.

