Marco Crasso e Maria Cachucha: quem é quem?
O «erro crasso» vem de Marco Crasso?
Um general azarado
«Crasso» é uma daquelas palavras que só aparecem com uma certa companhia. Só usamos na expressão «erro crasso» – em geral, mais nada é «crasso», pelo menos no português contemporâneo. É uma expressão fixa – ou, melhor, um cliché.
Ora, encontramos uma explicação muito famosa, que aparece em muitas páginas e até em programas de televisão: «erro crasso» viria de «erro de Crasso» – e este Crasso seria Marcus Licinius Crassus, o famosíssimo general romano que morreu numa batalha e ficou conhecido por uma série de vários erros militares. Não bastou morrer na batalha: de acordo com esta etimologia popular, o nome ficou também registado numa expressão eterna, para sempre associando «erro» a «crasso».
É uma história apetitosa – e é preciso ter muito cuidado com as histórias apetitosas. Não quer dizer que não possam ser verdadeiras, mas desconfiemos sempre. Neste caso, é falsa.
Como é que eu posso afirmar isto com tanta segurança? Por três motivos.
Primeiro: a palavra existe em várias línguas – por exemplo, em castelhano (craso), em alemão (krass), em inglês (crass). No entanto, só em português está particularmente associada à palavra «erro».
Segundo: mesmo na nossa língua, a associação exclusiva a erro é relativamente recente. Ainda no século xix, é possível encontrar o uso de «crasso» noutras expressões, com o sentido de «grosso», «espesso», «pesado». N’Os Maias, encontramos «dissipar-lhe na grande luz do rio o pesadume crasso da cartilha» ou ainda «o crasso pessoal do constitucionalismo» – e isto num só livro de um só autor. Se pesquisarmos em obras do século xx, vemos como a palavra acabou por ficar agarrada apenas à palavra «erro». É um fóssil linguístico, uma palavra que caiu em desuso, mas ficou preservada numa expressão fixa.
Crasso é um fóssil linguístico, uma palavra que caiu em desuso, mas ficou preservada numa expressão fixa.
A verdadeira origem da palavra
Terceiro e último motivo: a origem da palavra é crassus, uma palavra latina que tinha também a forma alternativa grassus. Esta palavra deu-nos «crasso», mas também «graxa». Significava, em latim, algo espesso, enorme, profundo. O primeiro dicionário de português – o Vocabulário de Bluteau, que vai aparecer mais à frente neste capítulo – dá-nos a origem certa e apresenta como exemplo «ignorância crassa».
Em resumo: a expressão «erro crasso» só se cristalizou desta forma no século xx e só em português. A palavra «crasso» já existia antes e não estava associada de forma particular a «erro» – não há qualquer ligação, na origem, aos erros do general romano.
Por que razão é tão fácil acreditar na lenda de Marco Crasso? Porque é uma história apetitosa, claro. Ora, quase sempre, a origem das palavras e das expressões é muito mais difícil de discernir, porque a língua desenvolve-se na oralidade, sem registo permanente – neste espaço vazio, nascem lendas urbanas com facilidade. Quando e por que razão «crasso» ficou associado a erro, perdendo-se o sentido mais geral? Foi durante o século xx, mas não se sabe bem nem quando nem porquê.
«Erro crasso» remete para os erros de Marco Crasso. – falso
«Crasso» tem origem em crassus, palavra latina que significa «espesso». – verdadeiro
Marias há muitas
A expressão «no tempo da Maria Cachucha» tem algo em comum com o famoso «erro crasso» – tal como com o general Crasso, há uma pessoa que aparece associada à expressão, mas só porque o nome, por coincidência, é o mesmo.
Neste caso, a história que, por vezes, se conta, é que a Maria Cachucha da expressão era uma mulher de Torres Vedras com um invulgar aspecto de homem. Nasceu em 1900 e morreu em 1960. Ficou conhecida por causa de várias reportagens, em especial a incluída num número da revista EVA, em 1942. Será ela a Maria Cachucha da expressão?
Provavelmente, não. O registo mais antigo que encontrei da expressão é de 1927, na revista Sempre Fixe. Parece-me pouco provável que a expressão «no tempo da Maria Cachucha» remetesse, em 1927, para uma mulher que não tinha ainda 30 anos e não era conhecida.
No início do século xix, houve uma canção muito famosa em Portugal, referida por vários autores, chamada «Maria Cachucha», no estilo da cachucha, um género musical espanhol. Esta canção ficou muito conhecida e o nome «Maria Cachucha» ficou-lhe para sempre associado. Camilo Castelo Branco referiu o nome no conto «Aquela casa triste», usando a grafia «Maria Caxuxa»: «Não vi o senhor visconde chorar de prazer, mas observei que S. Ex.ª estava comovido quando a requinta assobiava uns guinchos estridentes da Maria Caxuxa.»
Todos nós sabemos como uma canção pode ficar associada a um certo tempo. É fácil imaginar que, décadas depois da moda da Maria Cachucha, as memórias desse tempo estivessem associadas à melodia. Que a expressão apenas apareça nos anos 20 do século xx não é nada de extraordinário – muitas expressões demoram tempo a chegar ao registo escrito. Assim, presumo que se tenha começado a dizer «no tempo da Maria Cachucha» na segunda metade do século xix, em referência à primeira metade do século, e a expressão tenha acabado por aparecer na revista quando já era bastante conhecida.
Há ainda uma outra volta do parafuso. Houve, na Galiza, uma Maria Castanha, personagem histórica medieval que deu origem à expressão «no tempo da Maria Castanha», ou melhor, da María Castaña, ou talvez da Maricastaña ou da Maricastiñeira. A expressão «no tempo da Maria Castanha» é muito conhecida em Espanha e também encontrou uso em Portugal.
Talvez a expressão espanhola, também conhecida por cá, tenha empurrado subtilmente os falantes, com a Maria Cachucha na memória, a torcer um pouco a expressão espanhola e a criar a expressão portuguesa «no tempo da Maria Cachucha». Têm a mesma estrutura – e temos o nome «Maria» a ajudar.
«No tempo da Maria Cachucha» remete para a mulher de Torres Vedras. – falso
«No tempo da Maria Cachucha» significava «no tempo da canção “Maria Cachucha”». – verdadeiro
Este texto é um excerto de Queria? Já Não Quer? — Mitos e Disparates da Língua Portuguesa, de Marco Neves, publicado pela Guerra e Paz em 2024.

